segunda-feira, 15 de junho de 2015

Após um breve recesso

Nossa...com a correria da vida, e por conta da obra sem fim, deixei de escrever aqui...mas voltemos a programação normal.
Como post de retorno falarei sobre uma das várias lendas que cercam essa jornada tão especial e particular que é o caminho de Santiago!
Lembra que no post anterior eu mencionei ter visto o céu mais bonito do caminho?? Com uma infinidade de estrelas? Então...uma das lendas mais bonitas que cercam Santiago é a da origem do nome da cidade, vamos a ela!
Reza a lenda que no ano de 813, Pelayo, um personagem eremita da tradição popular da Espanha, vivia em Solovio e durantes várias noites consecutivas via uma chuva de estrelas cairem num lugar específico do bosque que ele ficava, impressionado com a frequência daquele evento, resolveu procurar o bispo da região informando o que estava presenciando há diversas noites. O Bispo reuniu um grupo e foi averiguar a informação do eremita, e ao chegar qual foi sua surpresa ao encontrar um grande sepulcro de pedra, onde estavam enterrados os restos mortais de THIAGO Maior e dos seus dois discípulos Teodoro e Atanásio! Com essa fantástica descoberta, que foi considerada um milagre por muitos, resolveu-se construir uma capela no local, lugar hoje que abriga a magnânima Catedral de Santiago de Compostela...ou seja, COMPOSTELA = CAMPO DE ESTRELAS! Sacou?? :)
Outra lenda já acerca do símbolo do peregrino, a vieira, diz que: "No ano de 1532 apareceu a primeira narração sobre em suposto milagre que havia originado esse antiquíssimo costume. Segundo ela, um príncipe vinha cavalgando partindo de terras longínquas com o único objetivo de conhecer e orar frente a tumba do Apostolo Santiago quando sofreu um ataque de uma serpente. O seu cavalo começou a corcovear e pondo-se a galope correu com a sua montaria em direção ao mar. O animal arrojou-se à água com o seu cavalheiro, o príncipe a ponto de afogar encomendou sua alma a Santiago. Minutos depois, seu corpo emergiu das águas totalmente coberto de conchas de vieira. A partir desse momento os peregrinos a Santiago se identificaram com as conchas marinhas." - WIKIPÉDIA
São diversas lendas que cercam esse lugar, mas o mais legal é você descobrir suas próprias histórias a cada passo do caminho...e ser VOCÊ O PERSONAGEM CENTRAL DESSA JORNADA!
Até a próxima!

terça-feira, 14 de abril de 2015

Calzadilla de La Cueza, a névoa e um presente....UM AMIGO BAIANO!

Eu não sei se já mencionei isso aqui no blog, mas o caminho de santiago deveria se chamar MONTANHAS DE SANTIAGO! Porque 90% do caminho é feito de montanhas!! Ninguém me avisou disso quando saí feliz e pimpona do Brasil para me embrenhar nesses bosques...achava que era tudo plano, um bosque reto e sinuoso...LEDO ENGANO! Todo dia quando acordava e pegava meu mapinha da rota a ser feita, olhava para o horizonte e via uma montanha, e pensava: - Ok..a cidade destino fica no pé daquela montanha! Tá delícia! Dá pra fazer...TOLINHA!!! Na maioria das vezes ficava DO OUTRO LADO DA MONTANHA...E DA-LHE BOLHAS!!! Mas para a minha surpresa, o dia mais cansativo e desgastante fisicamente para mim, foi o dia que não tinha uma montanha sequer! Foram 17 km de reta, plana e sem uma curva...ocorre que neste dia tinha um nevoeiro que teimava em permanecer....e alia uma estrada sem fim com uma fumaça que não lhe permite ver além de 50 metros adiante...acreditem, é uma prova de fogo para o psicológico...fui falando sozinha igual a uma maluca...teve um senhor que tinha um problema na perna que o conheci em Carrion e que caminhava bem devagar, até mais que eu, e vez o outra nos esbarrávamos no trajeto, mas sabe quando você anda, anda e anda e não sai do lugar? Ali meus medos começaram a aparecer...e nesse dia foi uma catarse emocional...chorei, ri, espraguejei...parecia uma maluca andando e falando sozinha...estava precisando falar com alguém, e não tinha ninguém para conversar...mas o caminho é mágico, lembra? Então quando estava com minhas forças se esvaindo,chego a Calzadilla de La Cueza, que não costuma ser uma cidade que os peregrinos param, mas eu simplesmente não aguentava mais e decidir ficar naquele local...e foi a melhor decisão que tomei...ao entrar na hospedaria sou recepcionada por um baiano!!!! Uma das pessoas mais adoráveis que já conheci e isso foi uma alegria sem fim...depois de tantos dias encontrar alguém que falasse português, e que era de uma afetuosidade sem fim foi maravilhoso...eu para variar estava com os pés destruídos e foi muito bom poder contar com esse carinho...mas como comigo tudo acontece, adivinha só o que aconteceu? Qual a pior coisa que pode acontecer para um peregrino que faz a jornada no inverno e que está doente? NÃO TER ÁGUA QUENTE NO CHUVEIRO!!! E, algo que raramente ocorre lá, aconteceu no dia que eu estava...queimou o aquecedor, ou faltou combustível (não lembro ao certo) e TOMEI BANHO FRIOOOOOOO...mas mesmo com esse acidente de percurso, lembro que foi o céu mais bonito que vi em todo o caminho de Santiago, não me lembro de ter visto tantas estrelas assim como naquele dia...e isso me lembra uma das histórias que cerca a lenda desse apóstolo e que dá o nome a cidade de Compostela...que conto para vocês amanhã!
Beijinhos



Burgos, Carrion de Los condes e o descanso forçado

Já estava quase quinze dias caminhando e chegava a BURGOS, um linda cidade com uma catedral majestosa e, na minha opinião, o melhor albergue de todo percurso, que fica atrás da catedral de Burgos. Queria chegar nesse local, pois como boa apreciadora de história que sou sabia que na catedral estavam os restos mortais de EL CID, ou Rodrigo Diaz de Vivar, que governou Valencia independentemente do Rei e que é um herói local, reza a lenda que ele venceu os mouros depois de morto! Na verdade ele faleceu em seu castelo e sua esposa amarrou seu corpo no seu cavalo e o enviou para o campo de batalha! Os mouros que achavam que El Cid estava morto, ao verem ele cavalgando na guerra ficaram aterrorizados e fugiram derrotados...eu já gosto pouco dessas histórias né? Então era muito interessante visitar essa catedral e ver onde estão os restos mortais desse guerreiro e de sua família...
Ocorre que a guerreira aqui estava doente...a febre bateu a casa dos 40º e não conseguia mais respirar o que me obrigou a ir parar num hospital, do qual só tenho a falar bem! O atendimento foi primoroso e o médico queria que eu parasse a caminhada...abri o berreiro e o pobre coitado para me acalmar fez um "acordo"comigo. Se eu me comprometesse a ir para a próxima cidade de ônibus ele me daria alta no final da noite, pois estava com uma sinusite violenta, creio que pelo excesso de chuva e frio, e eu aceitei de pronto, mesmo porque não seria uma etapa que desmereceria meu mérito da caminhada...e o médico riu e disse não entender esses peregrinos doidos...nem eu entendo!
Fiquei um dia no hospital e depois fui descansar no albergue quando a febre cedeu, e no dia seguinte de manhazinha peguei um onibus e parti para CARRION DE LOS CONDES, onde aqui no Brasil e lá também era carnaval...o que eu achei uma comédia! O carnaval dessa micro cidade mais parecia um carnaval de escola primária...tinha uns desfiles malucos, e eu lembro de ter visto uma ala vestida de mensagem de whatsapp!!
Nessa cidade eu fiquei num albergue que é um convento e quando cheguei ainda baqueada pela sinusite a freira me deu uma medalinha de nossa senhora e disse que ela iria me proteger até o final do caminho...essas gentilezas no percurso é que nos enche de esperança para o dia seguinte!
Ocorre que essa noite foi a minha PIOR NOITE EM ALBERGUE, o convento não tinha calefação, eu ainda tinha febre e o frio era medonho...e para piorar tinham 6 homens que eram os maiores RONCADORES de todo trajeto...rs, existe os tampões de ouvido que são excelentes para esse tipo de situação, mas como estava muito congestionada pela sinusite, quando colocava os tampões dava uma dor de cabeça absurda, então preferi a sinfonia dos roncos...foi uma longa noite em claro o que me deixou preocupada para o dia seguinte, mas tinha fé em Santiago..ele teria que mexer os pauzinhos dele lá em cima e me ajudar a continuar caminhando....e ele ajudou!







segunda-feira, 13 de abril de 2015

Santo Domingos e a lenda da galinha que cantou depois de assada...

Olá pessoal!
Semana corrida e alguns dias sem postar, mas a sorte é que mesmo um ano depois da grande jornada, tudo encontra-se fresquinho aqui na minha mente...
Após sair de Najera, num dia emocionalmente desgastante para mim, me enveredei pelo trajeto que naquele dia estava complicado...continuava a chover e aquela febre de outrora começou a piorar, e para me martirizar ainda mais, no albergue de Najera conheci alguns peregrinos e um deles, outro italiano, era particularmente IRRITANTE! Rs....eu me divirto ao lembrar dos poucos momentos que estivemos juntos, pois a pessoa fazia questão de ser desagradável...primeiro que era um alucinado por futebol e não se conformava do Brasil ter ganho a copa de 1994 (rs), segundo porque era um atleta e condenava todas as pessoas que precisavam, vez ou outra ir de ônibus para outra cidade, ou então, o que eu fiz, um dia mandei a minha mochila por conta dos meus machucados para o próximo destino e blablabla...eu ouvia calada (o que é um milagre para mim...rs) e pensava: - Deixa essa criatura desabafar, no final quem vai chegar, serei eu!
E nesse dia estava muito ruim o caminho, lama por todos os lados e como eu e minha lerdeza natural estávamos firme e fortes, o italiano baixinho passou por mim e falou: AMANHA TE ENCONTRO NO ALBERGUE! Aff....e eu só mandei meu olhar ariano e continuei de cabeça baixa porque já tinha tomado uns três estabacos...rs
Enfim! Cheguei em Santo Domingo ainda de tardinha, a tempo de conhecer a cidade e a lenda que cerca esse belo santo...
Santo Domingo Dela Calzada foi um monge que viveu na cidade que leva seu nome e que ajudava os peregrinos que faziam o trajeto lá pelos idos de 1040. Ele construiu um hospital e ajudou a construção de uma ponte, tudo isso em prol dos peregrinos de quem tinham muito cuidado e carinho, mas ficou famoso pelos seus milagres, em particular o mais famoso deles...a história do galo e da galinha que cantaram depois de assados! Existem várias versões dessa bela lenda que cerca o milagre do santo, e que justifica a presença do casal de aves que vive DENTRO DA IGREJA!! Vamos a lenda: Dizem que nos idos do seculo XIV um rapaz juntamente com seus pais resolveu fazer a peregrinação e ao parar na cidade de Santo Domingo despertou uma forte paixão numa donzela que lá vivia, ocorre que o mesmo não cedeu aos encantos e caprichos da bela moça, o que despertou a ira da donzela que, maliciosamente, colocou uma taça de prata na bagagem do rapaz e no dia que ele iria para outra cidade a mesma chamou os guardas e o acusou de furto, ele então foi julgado e condenado a morte por enforcamento, e depois da execução da pena, seus pais ao se dirigirem para retirar o corpo ouviram a voz de um anjo que afirmou que Santo Domingo salvara sua vida e que ele estaria vivo! O que os pais puderam confirmar e, imediatamente, correram até o juiz da cidade que estava almoçando naquela hora para informar que seu filho havia sido salvo e pediram que o libertassem! O Juiz parou o almoço e disse para os pais: - Solto seu filho quando esse galo e essa galinha que estao assados no meu prato cantarem! Neste momento as aves se cobriram de penas saíram do prato e cantaram!!! O Juiz libertou o rapaz e a partir daquele momento vivem dentro da igreja um galo e uma galinha (QUE MAIS PARECEM UM CHESTER DE TÃO GRANDES) dentro de um galinheiro fechado com vidro, e são substituídos de 20 em 20 dias e para coroar a lenda, dizem que se o galo cantar quando você está dentro da igreja sua peregrinação será bem sucedida...ADIVINHEM SÓ!!! O GALO ESTAVA COM A MACACA NO MEU DIA E ELE CANTOU O TEMPO INTEIRO!!!! Fiquei toda boba... :)
A igreja é linda, o sarcófago do santo fica em frente ao galinheiro e isso me encheu de esperança para prosseguir e ignorar as chacotas ...rs
Nesse dia eu fiquei num albergue muito bem estruturado, e no dia seguinte teria na cidade uma maratona de corrida e a mesma estava cheia de atletas e competidores, no meu quarto que cabiam 30 camas tinha um cara que eu passei mal de rir, ele se exercitava no quarto ao som de EYE OF TIGER...ahahahahahahha, e falou para mim que eu deveria parar de andar pois estava com bolhas demais e seria impossível conseguir chegar a Santiago...aff, já tinha ouvido essa frase tantas vezes que agora eu sorria e ignorava :D
No dia seguinte eu seguiria para Burgos e estava muito ansiosa para conhecer esse lugar, que era uma grande cidade e tinha uma das catedrais mais belas do caminho...






terça-feira, 7 de abril de 2015

CAMINHO DE SANTIAGO - Longroño, Najera e a mania de ir Missa dos Peregrinos

Uma coisa é certa meus amigos, eu sou uma pessoa que atrai situações cômicas...tudo que não acontece com os outros, podem acreditar, acontece comigo! E não seria diferente no caminho de santiago né?
Após sair de Los Arcos e tomar vários tombos pelo caminho até chegar em Longroño, a primeira atitude que tive quando cheguei na cidade foi comprar um novo calçado. Isso não é o correto a ser feito, mas meus pés contabilizavam mais de 10 bolhas, eu já havia perdido duas unhas por conta da subida aos Pirineus, então se eu não tomasse uma atitude drástica, minha jornada correria risco de acabar antes do tempo! Longroño é uma cidade bem maior e melhor estruturada que Los Arcos e lá encontrei uma loja de esportes e depois de experimentar vários calçados achei um que serviu como uma luva!! E pela primeira vez utilizei o serviço de correios ao peregrino, olha que legal: você vai a um correio próximo a sua localização e envia o que quiser para Santiago, escreve na caixa PEREGRINO EM CURSO, e quando chegar em Santiago de Compostela, você retira lá o que mandou! Muitos peregrinos se aliviam do excesso de peso fazendo isso, é uma boa forma de poupar peso na sua mochila, e como eu fiquei com pena de jogar a minha bota novinha fora, eu utilizei essa ferramenta! De posse de calçados novos e confortáveis, de uma garrafa de vinho suave, uma baguete e um queijo delicioso eu fui para o albergue descansar, mas antes fui averiguar na catedral de Longrono que horas seria a missa, visto que eu, mesmo não sendo católica, adquiri o hábito de sempre que conseguia chegar a tempo, assistia a missa na igreja das cidades, boas vibrações são sempre benvindas não é mesmo? Então falei com Gonçalo que tinha uma missa as 18:00 na catedral, que é linda por sinal, e marcamos de ir juntos receber a benção dos peregrinos...uma coisa é certa meus amigos, peregrino tem que se despir de vaidade....era impossível eu ficar bem vestida, haja vista que durante um mês eu tinha 3 calças, 4 camisas, dois casacos, uma jaqueta de chuva e três meias, então nem se estresse com isso, masssssssssss quando eu e Gonçalo adentramos a catedral, uns 10 minutos antes da missa eu estranhei que tinha muita gente bem arrumada...normalmente nessas missas não tem muitas pessoas, geralmente não chega nem a 20 pessoas, mas a igreja "tava bombando" e comentei com meu amigo:
- Nossa, o povo aqui se arruma mesmo para missa hein!
 - Pois é Dani, aqui na Espanha é assim mesmo...
Resolvemos ignorar que estávamos mal vestidos, mesmo porque todos identificam de pronto um peregrino...rs, e sentamos para assistir a missa...mesmo enfrentando alguns olhares para nós, olhares que já estavam me incomodando...
 Eis que ao prestar atenção no sermão eu ouço o padre falar: MUERTE! Foi aí que minha ficha caiu....quando eu fui reparar bem a roupa das pessoas, vi que estavam de preto....eu tinha entrado na missa errada..aquela era um funeral!
Viro para Gonçalo e digo:
- Gonçalo, estou errada ou o padre falou MORTE?
 - Ih Dani, acho que estamos na missa errada, o que iremos fazer?
 - Não dá para levantar no meio da missa, e se é pra rezar para nós, não custa rezar para o morto também!! Finge que conhece a pessoa e vamos até o fim agora Gonçalo!!
 Ele teve uma crise de riso, mas graças a Deus ninguém notou...quando a missa acabou saímos de fininho antes que algum familiar nos cercasse e perguntasse o que estávamos fazendo ali...e nós dois voltamos para o albergue sem a benção do peregrino, mas pelo menos rezamos pela alma do finado... No dia seguinte a esse meu mico, me despedi do meu amigo Gonçalo que foi encontrar a esposa numa outra cidade e ele iria pular umas etapas para que ela o acompanhasse até o final do trajeto, e voltei minha jornada solitária...Najera não tem muitos atrativos, exceto que era um lugar onde queimavam bruxas...reza a lenda que ali viviam muitas e tinham muitos rituais, eu que já gosto pouco dessas histórias, curti o lugar! Após deixar minha mochila no único albergue que encontrei, onde um Polonês era o cuidador do lugar, fui dar uma volta na cidade e comi um delicioso polvo...ao regressar para o Albergue conheci mais alguns peregrinos, e lá fiquei sabendo que a menina que começou a jornada em Roncesvalles e que não usava o cajado para caminhar teve que abreviar o caminho porque lesionou os joelhos...ou seja, o caminho encerrou para ela ali...não sei porque as pessoas teimam ainda em fazer o errado, sabendo que vão se machucar...mas, lições do caminho! Esse dia foi bem legal no albergue, pois vivi a experiência que muitos tem de compartilhar comida! Cada um comprou um ingrediente e fizemos panquecas, comemos pães, queijo, vinho, e nos divertimos com as histórias que todos contávamos..cada qual com sua visão do caminho, cada qual com sua verdade, mas todos com o mesmo objetivo, DAR UM ABRAÇO EM SANTIAGO! A essa altura do campeonato eu ainda tinha dúvidas se iria conseguir chegar, mas desistir? NUNCA...rs Ainda haviam muitas igrejas para eu pagar mico, e acreditem, eu iria ainda aprontar bastante ;)
 Até a próxima pessoal!

CAMINHO DE SANTIAGO E o "churrasco de macarrão"

Olá meus amigos!
Como eu disse no último post, eu e meu amigo Gonçalo mandamos nossas mochilas na frente e caminhamos até Estella carregando  uma pequena sacola, e o serviço de "táxi de mochila" iria deixar as mesmas na oficina de turismo, ocorre que estava chovendo muito e meu corpo começava apresentar sinais de uma gripe, e a febre veio com força total, o que me fez andar mais devagar...como José e Gonçalo eram cavalheiros, acompanharam meu ritmo...com isso acabamos chegando quase de noite na cidade destino e quando chegamos na oficina a mesma estava fechada!! Ou seja, estávamos sem mochila, sem roupas, sem nossos objetos de higiene pessoal...e eu com os pés machucados e um febrão que insistia em aparecer! Ocorre que os reflexos do caminho já apareciam na minha personalidade...em outras situações eu daria um ataque de pelanca, ficaria surtada, mas como estava sozinha e pude atestar que não adiantaria ficar estressada, simplesmente o problema não iria se resolver, eu teria que esperar até o dia seguinte para pegar minha mochila somente as 10 da manhã, o que atrasaria a partida da caminhada até Los Arcos, mas mesmo assim decidi por relaxar e consegui uma toalha emprestada, shampoo e escova de dente eu comprei novos e uma caixa de bandaid's para curar as bolas...a roupa usei a mesma, mas ninguém ia dormir comigo....rs
Me despedi de José na rodoviária, ele preocupado com a minha gripe e me deu uma injeção de ânimo dizendo que eu iria conseguir chegar a Santiago...fiquei triste, mas sabia que essas situações iriam se apresentar no decorrer da minha jornada e voltei para o Albergue.
Lá chegando resolvi cozinhar, quem me conhece sabe que essa é a minha praia...então a fim de deixar Gonçalo mais feliz pois ele também sofria com a despedida do amigo, e para economizarmos, fui no mercadinho e comprei um macarrão e molho de tomate e fui me aventurar na cozinha do Albergue, que era muito bem estruturada. Coloquei a água para ferver e pus o macarrão para cozinhar...subi para chamar meu amigo, nisso sinto um cheiro de queimado e volto correndo para a cozinha...me deparo com italiano retirando o meu macarrão queimado do fogão!! O fogo do fogão era muito forte e pegou na massa enquanto ela ainda estava na panela....ele sorriu e falou: JÁ VI QUE NÃO SABE COZINHAR NÉ?
Eu sorri meio sem graça e disse: MUITO PELO CONTRÁRIO..COZINHO PARA SOBREVIVER....RS, ele então deu uma gargalhada e disse que eu devia passar fome então..rs
É claro que não me dei por vencida, mesmo tendo queimado um macarrão na frente de um italiano, e cozinhei outra massa...esse rapaz estava fazendo o caminho reverso. Ele vinha de Santiago e iria andando até a Toscana!! Quase dois mil km!! E ele fazia o trajeto SEM DINHEIRO!! Ele sobrevivia de bicos, trabalhava em troca de um prato de comida, ou de um café da manhã...não pensem que ele era pobre, muito pelo contrário, vinha de uma família abastada, mas resolveu viver essa experiência o que nos rendeu altas conversas enquanto ele preparava azeitonas que havia colhido nas inúmeras oliveiras que tinham no caminho. Todavia quando o vi fazendo aquelas azeitonas eu meio que estranhei, pois estavam verdes e amargas!! Mas como ele ainda não acreditava que eu soubesse cozinhar, ficou reticente em aceitar minhas dicas, mas quando o meu macarrão ficou pronto e ele provou aí ele acreditou :P
Fui dormir e no dia seguinte após pegarmos nossas mochilas na oficina de turismo e mudar de roupa seguimos para Los Arcos, pois nesse dia iríamos conhecer no meio do trajeto a famosa fonte de vinho, onde o Peregrino pode beber o quanto quiser na fonte abastecida por um mosteiro, e Gonçalo estava animadíssimo...eu como não sou fã de bebida alcoólica queria mesmo ver a igreja e o mosteiro que sabia ser lindíssimos, e eu estava certa! Os locais no caminho de santiago passam uma paz suprema...cada local, cada igreja, cada recanto tem uma energia que só indo lá para sentir...saber que milhares de pessoas estiveram ali, milhares de sonhos, milhares de pedidos e provações passaram por aqueles bosques, torna o caminho MÁGICO.
Nesse dia foi particularmente sofrido para mim...estava muito debilitada e estava chovendo muito fino, além de estar com muita lama, o que me fazia parecer um pinguim caminhando...dizem que tem câmeras espalhadas pelo caminho..graças a Deus não vi nenhuma, porque eu tomei vários estabacos na lama e dariam ótimas video cassetadas..rs
Chegamos em Los Arcos e eu fiquei numa pensão que se chama CASA DE AUSTRIA e a dona era uma fofa, e tinha um labrador chamado Mambo que era uma coisa de louco...pela primeira vez lavei roupa (coisa que sou péssima em fazer...rs) e me entupi de analgésico, na esperança da febre baixar, a bota que comprei acabou com meus pés e como a próxima parada seria Longroño eu decidi comprar novos sapatos pois estava caminhando de papete...rs
Dormi o sono dos justos e de manhã ganhei uma linda escultura de um senhor que morava nessa pensão, e rumei para a próxima etapa onde aconteceu uma das situações mais engraçadas do caminho....que conto para vocês no próximo post!
Beijinhos a todos












segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caminho de Santiago - Pamplona, Puente de La Reina e Estella

Pois então...após três dias de caminhada intensa, meus pés gritaram e as bolhas apareciam por todos os lados...já havia lido em alguns relatos na internet que bolhas poderiam finalizar o caminho mais cedo, e isso me apavorava um pouco, haja vista que eu sou a "mulher-bolha"! Qualquer sapato me dá bolha, que dirá uma bota de caminhada, que não havia sido amaciada devidamente..eu devia ter umas 5 ou 6 bolhas nos meus pés e para piorar duas delas cobriam totalmente os meus dedos mindinhos...rs
Mas eu não iria deixar uma bolha acabar com a minha jornada e após puxar assunto com um farmacêutico, o mesmo me ensinou o que eu deveria fazer com as bolhas, então era assim a minha rotina: Eu caminhava, comia alguma coisa no trajeto, e quando chegava na cidade destino, tomava um banho e depois ia cuidar dos pés...eu furava todas as bolhas, as drenava, NÃO TIRAVA A PELE, e passava um remédio que comprei lá próprio para isso, tipo um anti-séptico, e como que por milagre no dia seguinte elas estavam sequinhas!!! Os pézinhos prontos para novas bolhas..ahaahahaah
Daí que nesse dia iria chegar em Pamplona, local que eu tinha muita curiosidade de conhecer, não pelas touradas, porque eu sempre torço para o touro (rs), mas pela arquitetura medieval do local e lá tem um dos albergues mais famosos do caminho, o Maria e Jesus que é muito confortável (para os padrões de um albergue, é claro), nesse dia eu tive uma amostra dos desafios que se mostrariam no decorrer da viagem.
Como eu disse antes, eu andava devagar, muitas vezes como um pato, pois meu pé estava machucado mesmo, e tentava não me concentrar na dor, mas nessa época do ano você irá encontrar duas nacionalidades muito presentes no caminho: ALEMÃES e SUL COREANOS. E meus amigos, chega a ser engraçado vê-los caminhar...eles não andam...eles CORREM praticamente, e não raro fazem mais de 40km por dia...eu me deparei com um grupo de alemães e uma moça sul coreana e eles passaram, desejaram BUEN CAMINO e seguiram em frente...ela estava com pressa para chegar em Santiago...vou dizer como eu me sentia quando era "ultrapassada"por esses grupos: UMA LESADA!! ahahaaahahah, e para piorar uma moça que conheci em Roncesvalles começou a caminhar comigo e ela andava muito rápido e eu tentava alcançar, resultado: Ficava cheia de dor e mal humorada...mesmo vendo que a menina estava caminhando de forma errada, pois não usava o cajado nas descidas e isso acaba com seus joelhos...e aí quando chegamos em Pamplona, eu mentalmente e fisicamente esgotada por conta dessa pressão que eu tinha colocado sobre meus ombros, ela veio conversar comigo dizendo que iria caminhar junto ao Chinês, pois eles andavam mais rápido do que eu, e embora na hora eu tenha ficado melindrada, depois vi que foi a melhor coisa que me aconteceu!! Foi a minha primeira lição no caminho de Santiago...muitas das vezes tentamos acompanhar o ritmo do outro, por achar que nosso ritmo é errado, ou mais lento.. NADA DISSO!! Cada qual com o seu caminho, com o seu ritmo! Naquela hora eu me chamei a atenção e pensei: CACETA DANI! TU VEIO AQUI PARA RELAXAR! DANE-SE O QUE O OUTRO VAI FAZER, CONCENTRE-SE NA SUA JORNADA, SANTIAGO NÃO VAI FUGIR!!
E munida desse pensamento, disse adeus aos meus breves companheiros e na manhã seguinte parti para PUENTE DE LA REINA, fui andando sozinha novamente e a sensação foi maravilhosa...nesse dia sabia que encararia uma subida ingreme e uma descida pior ainda, era o dia do ALTO DO PERDÃO, uma montanha que tem escrito assim: AQUI O CAMINHO DO VENTO CRUZA COM O CAMINHO DAS ESTRELAS...e no alto dessa montanha tem uma escultura representando todas as gerações de peregrinos, desde Santiago até os "bicigrinos"de hoje em dia.
Quando eu estava começando a subir, um peregrino que já tinha visto em Roncesvalles, puxou assunto comigo e fomos caminhando juntos, mas esse caminhava devagar igual a mim...rs, ele ja tinha feito o caminho outra época e dessa vez iria só até Estella, na descida do Alto do Perdão foi providencial ter alguém por perto, pq é uma descida repleta de pedras por todos os lados, e qualquer passo em falso pode causar um sério acidente, e muitos relatos dão conta que é nessa descida que os seus joelhos ficam por lá...rs, não duvido que foi nela que ferrei os meus...porque tem que descer muito devagar e com extremo cuidado, nesse dia após toda essa tensão parei para almoçar num vilarejo e como José também apreciava o caminho como eu foi um percurso agradável e cheio de risadas.
Chegamos em Puente de La Reina, uma cidadezinha muito pequena, mas o albergue era bem confortável e a água era quente...rs, nessa altura do campeonato já encontrava vez o outra um peregrino, não estava só. Mas brasileiro que é bom, NECA!
Um detalhe a respeito de BANHO! Os chuveiros nos albergues tem temporizador, e vc tem que ficar apertando um raio de um botão para a agua sair...é uma perturbação isso..e no frio é um horror..rs, eu cortei o meu cabelo na época só para não perder tempo no chuveiro...
A vantagem de se caminhar que nem um burro de carga, é que você não dorme..vc capota! E o sono é o melhor remédio para um corpo cansado...no dia seguinte levantei e fomos eu, José e Gonçalo, um senhor de 70 anos que estava fazendo a caminhada para celebrar o seu aniversario de casamento, rumo a Estella, onde José encerraria a sua jornada, como meus joelhos estavam muito inchados por conta da descida do Alto do Perdão, resolvi mandar minha mochila, juntamente com a mochila do Gonçalo para o albergue municipal e só carreguei uma pequena sacolinha. Muitos peregrinos condenam essa prática, é claro que não fiz isso todo dia, mas meus amigos, REPITO AQUI, o caminho É SEU, faça da maneira que achar melhor, sem julgamentos ou condenações! Eu tinha uma meta, chegar a Santiago, e conheço os limites do meu corpo, faria de tudo para completar essa jornada, e se eu achasse que deveria poupar peso num dia para aguentar nos outros, eu faria!
Conseguimos chegar em Estella, mas o que nos aguardava foi divertido e a história do macarrão que pegou fogo marcou a minha jornada....mas isso eu deixo para amanhã!
Um beijinho a todos