Pois então...após três dias de caminhada intensa, meus pés gritaram e as bolhas apareciam por todos os lados...já havia lido em alguns relatos na internet que bolhas poderiam finalizar o caminho mais cedo, e isso me apavorava um pouco, haja vista que eu sou a "mulher-bolha"! Qualquer sapato me dá bolha, que dirá uma bota de caminhada, que não havia sido amaciada devidamente..eu devia ter umas 5 ou 6 bolhas nos meus pés e para piorar duas delas cobriam totalmente os meus dedos mindinhos...rs
Mas eu não iria deixar uma bolha acabar com a minha jornada e após puxar assunto com um farmacêutico, o mesmo me ensinou o que eu deveria fazer com as bolhas, então era assim a minha rotina: Eu caminhava, comia alguma coisa no trajeto, e quando chegava na cidade destino, tomava um banho e depois ia cuidar dos pés...eu furava todas as bolhas, as drenava, NÃO TIRAVA A PELE, e passava um remédio que comprei lá próprio para isso, tipo um anti-séptico, e como que por milagre no dia seguinte elas estavam sequinhas!!! Os pézinhos prontos para novas bolhas..ahaahahaah
Daí que nesse dia iria chegar em Pamplona, local que eu tinha muita curiosidade de conhecer, não pelas touradas, porque eu sempre torço para o touro (rs), mas pela arquitetura medieval do local e lá tem um dos albergues mais famosos do caminho, o Maria e Jesus que é muito confortável (para os padrões de um albergue, é claro), nesse dia eu tive uma amostra dos desafios que se mostrariam no decorrer da viagem.
Como eu disse antes, eu andava devagar, muitas vezes como um pato, pois meu pé estava machucado mesmo, e tentava não me concentrar na dor, mas nessa época do ano você irá encontrar duas nacionalidades muito presentes no caminho: ALEMÃES e SUL COREANOS. E meus amigos, chega a ser engraçado vê-los caminhar...eles não andam...eles CORREM praticamente, e não raro fazem mais de 40km por dia...eu me deparei com um grupo de alemães e uma moça sul coreana e eles passaram, desejaram BUEN CAMINO e seguiram em frente...ela estava com pressa para chegar em Santiago...vou dizer como eu me sentia quando era "ultrapassada"por esses grupos: UMA LESADA!! ahahaaahahah, e para piorar uma moça que conheci em Roncesvalles começou a caminhar comigo e ela andava muito rápido e eu tentava alcançar, resultado: Ficava cheia de dor e mal humorada...mesmo vendo que a menina estava caminhando de forma errada, pois não usava o cajado nas descidas e isso acaba com seus joelhos...e aí quando chegamos em Pamplona, eu mentalmente e fisicamente esgotada por conta dessa pressão que eu tinha colocado sobre meus ombros, ela veio conversar comigo dizendo que iria caminhar junto ao Chinês, pois eles andavam mais rápido do que eu, e embora na hora eu tenha ficado melindrada, depois vi que foi a melhor coisa que me aconteceu!! Foi a minha primeira lição no caminho de Santiago...muitas das vezes tentamos acompanhar o ritmo do outro, por achar que nosso ritmo é errado, ou mais lento.. NADA DISSO!! Cada qual com o seu caminho, com o seu ritmo! Naquela hora eu me chamei a atenção e pensei: CACETA DANI! TU VEIO AQUI PARA RELAXAR! DANE-SE O QUE O OUTRO VAI FAZER, CONCENTRE-SE NA SUA JORNADA, SANTIAGO NÃO VAI FUGIR!!
E munida desse pensamento, disse adeus aos meus breves companheiros e na manhã seguinte parti para PUENTE DE LA REINA, fui andando sozinha novamente e a sensação foi maravilhosa...nesse dia sabia que encararia uma subida ingreme e uma descida pior ainda, era o dia do ALTO DO PERDÃO, uma montanha que tem escrito assim: AQUI O CAMINHO DO VENTO CRUZA COM O CAMINHO DAS ESTRELAS...e no alto dessa montanha tem uma escultura representando todas as gerações de peregrinos, desde Santiago até os "bicigrinos"de hoje em dia.
Quando eu estava começando a subir, um peregrino que já tinha visto em Roncesvalles, puxou assunto comigo e fomos caminhando juntos, mas esse caminhava devagar igual a mim...rs, ele ja tinha feito o caminho outra época e dessa vez iria só até Estella, na descida do Alto do Perdão foi providencial ter alguém por perto, pq é uma descida repleta de pedras por todos os lados, e qualquer passo em falso pode causar um sério acidente, e muitos relatos dão conta que é nessa descida que os seus joelhos ficam por lá...rs, não duvido que foi nela que ferrei os meus...porque tem que descer muito devagar e com extremo cuidado, nesse dia após toda essa tensão parei para almoçar num vilarejo e como José também apreciava o caminho como eu foi um percurso agradável e cheio de risadas.
Chegamos em Puente de La Reina, uma cidadezinha muito pequena, mas o albergue era bem confortável e a água era quente...rs, nessa altura do campeonato já encontrava vez o outra um peregrino, não estava só. Mas brasileiro que é bom, NECA!
Um detalhe a respeito de BANHO! Os chuveiros nos albergues tem temporizador, e vc tem que ficar apertando um raio de um botão para a agua sair...é uma perturbação isso..e no frio é um horror..rs, eu cortei o meu cabelo na época só para não perder tempo no chuveiro...
A vantagem de se caminhar que nem um burro de carga, é que você não dorme..vc capota! E o sono é o melhor remédio para um corpo cansado...no dia seguinte levantei e fomos eu, José e Gonçalo, um senhor de 70 anos que estava fazendo a caminhada para celebrar o seu aniversario de casamento, rumo a Estella, onde José encerraria a sua jornada, como meus joelhos estavam muito inchados por conta da descida do Alto do Perdão, resolvi mandar minha mochila, juntamente com a mochila do Gonçalo para o albergue municipal e só carreguei uma pequena sacolinha. Muitos peregrinos condenam essa prática, é claro que não fiz isso todo dia, mas meus amigos, REPITO AQUI, o caminho É SEU, faça da maneira que achar melhor, sem julgamentos ou condenações! Eu tinha uma meta, chegar a Santiago, e conheço os limites do meu corpo, faria de tudo para completar essa jornada, e se eu achasse que deveria poupar peso num dia para aguentar nos outros, eu faria!
Conseguimos chegar em Estella, mas o que nos aguardava foi divertido e a história do macarrão que pegou fogo marcou a minha jornada....mas isso eu deixo para amanhã!
Um beijinho a todos