Como eu já disse antes, fiz muitas e muitas viagens na minha vida, mas vou começar no blog descrevendo a minha mais incrível jornada, pois foi a mais arriscada, fantástica e mágica viagem que já fiz, e como na época não encontrei muito material que me ajudasse nessa empreitada, vou começar por ela...e essa viagem renderá bons tópicos haja vista que foram 32 dias de caminhada, e hoje vou começar pela decisão de me tornar uma peregrina.
Sempre li sobre o caminho de Santiago, e vez ou outra pairava o sentimento de que eu deveria fazer esse caminho...ocorre que era algo vago, ora essa, como eu uma pessoa preguiçosa, que não gostava de andar, e que vivia no outro extremo do planeta iria me enveredar a uma caminhada de mais de 800km??
Ocorre que o ano de 2014 foi transformador em minha vida e por conta de uma série de acontecimentos pessoais, a vontade de ficar sozinha e caminhar para pensar foi aumentando e comecei a ler mais profundamente sobre esse trajeto feito pelo apóstolo Thiago.
No início era só um projeto que seria realizado na primavera de 2014, pois o mais prudente é realizar o caminho no verão ou na primavera, JAMAIS no inverno, e adivinhem só quando fiz?? Rs....pois é, não tive escolha pois ganhei a viagem e só tive 10 dias para me preparar para uma jornada que pessoas ficam anos se preparando...e de posse de um par de botas com menos de um mês de uso, de uma mochila com 12kg, de um livro guia, de um dicionário frânces-português e de uma coragem que não era desse mundo, embarquei nessa jornada no dia 18 de fevereiro de 2014 rumo a Bordeaux (França), sem saber o que me aguardava dali pra frente, sem sequer imaginar se eu aguentaria andar todo esse percurso e sem saber falar uma palavra em francês que não fosse abajur ou batom...rs
Era alto inverno na Europa quando desembarquei em Bordeaux, e dali eu já tinha a informação que deveria pegar um trem para SAINT JEAN PIED DE PORT, local onde o peregrino realiza o início do caminho francês como é conhecido o trajeto que liga essa cidadezinha até Santiago na Espanha.
Eu nunca tinha assistido o filme O CAMINHO com o Martin Sheen, só o assisti quando retornei da viagem e me emocionei cada minuto, pois vivi muito do que estava representado no filme, mas diferentemente do filme onde vemos muitos peregrinos no caminho, a minha jornada foi singular, pois no inverno pouquíssimas pessoas se atrevem a cruzar os Pirineus, e as montanhas de neve que se acumulam pelo percurso, ocorre que eu não tinha muita ideia do que iria encarar por lá, e como nunca fui muito fã de calor, achei que o frio seria mais confortável para caminhar, o que eu estava certa NESTE ASPECTO. Por outro lado, andava km e mais km absolutamente sozinha, cruzava vilarejos desertos o que pode ser assustador para muitas pessoas, para mim não foi, exceto no primeiro dia quando cruzei os Pirineus...rs
Quando peguei o trem e saltei na estação de Saint Jean não tinha uma só alma viva...rs, fui andando pelas ruas desertas (o que não ocorre no verão/primavera onde as ruas ficam abarrotadas de peregrinos) até encontrar a famosa seta amarela que nos guia até Santiago, ou então a concha, símbolo do Peregrino, mas não encontrava....começou bater um desespero, mas estava no meu primeiro dia e falhar não era uma opção para mim naquele momento...depois de muito bater cabeça encontrei a bendita concha na fachada de um prédio que me parecia estar vazio, e ao adentrar o recinto fui recebida por um gentil senhor que ao ver minha mochila e escutar meu sotaque identificou de pronto que eu era Brasileira, e se surpreendeu por me ver sozinha naquela época ali, disse ele que brasileiros nunca vão para lá no inverno...novidade..rs, e que no ano anterior um brasileiro havia falecido nos pirineus exatamente naquela época...
Ele então me guiou até o albergue municipal e lá me acomodei numa cama simples e tive contato com o primeiro albergue da jornada e já me deu a ideia de como seria dali para frente...
Deixei minhas coisas lá e fui comer na cidade, e logo de cara já experimentei o menu do peregrino, que é composto de entrada, prato principal, sobremesa e uma bebida, por menos de 10 euros se faz uma refeição decente em todo trajeto do caminho de santiago, pão e vinho são itens que tem em qualquer lugar, e na fome, são iguarias deliciosas ;)
Comprei um cajado profissional, daqueles que se pode utilizar na neve e comecei a fazer uma coleção de pins que iria encher meu casaco no final da jornada...sabemos que não podemos comprar muita coisa, pois qualquer peso extra é fatal para o desempenho da caminhada, mas como eu queria algo para me lembrar dos lugares que estive, achei que broches seriam algo que não iriam me atrapalhar no peso.
Voltei para o albergue, onde uma senhorinha era quem tomava conta do local e fui dormir, tinha um casal de suecos e um chinês, que estavam querendo ficar mais um dia na cidade pois havia previsão de chuva para o dia seguinte.
No dia seguinte, antes das 6 da manha, fui acordada por um "BONJOUR!" e tive a luz acesa na minha cara, daquele jeito que diz: VAZA DA CAMA E METE O PÉ! rs Me arrumei no automático, calcei minhas botas, peguei a mochila e o mapa que me deram e saí.
Quando olhei para o céu ainda estava escuro, chuviscando e a temperatura beirava 2 graus...respirei fundo e comecei a andar sem ter a menor noção de onde estava indo...aliás, sabia que precisava chegar em Roncesvalles antes do anoitecer e que tinha mais ou menos 27km de caminhada pela frente além de escalar uma montanha de 1300 metros de altitude.
E segui em frente...o frio era avassalador, e quando começou a subida cheguei a achar que não conseguiria...um misto de emoções passavam na minha cabeça, pensava: Que raios estou fazendo aqui??? Como vou conseguir subir essa montanha? E se eu me machucar? E se ninguém me encontrar???
Mas afastei esses pensamentos da minha cabeça, pensei na voz do meu irmão falando: CONTINUE!, e andei...andei...e andei...mas quando estava no alto dos Pirineus, o frio era absurdo e após subir um tanto olhei para o alto e vi uma nova subida íngreme, abaixo era neve, e tinha um desfiladeiro coberto de neve, bateu um desespero absurdo e pensei que fosse perecer, sentei e comecei a chorar, me espraguejando por ter tido essa ideia idiota de fazer esse caminho (rs), onde eu estava com a cabeça de topar ir no inverno??? Nessa hora os pensamentos começaram a embaralhar e a primeira coisa que pensei foi: Se eu morrer o translado do corpo fica em mais de R$40.000.00!! Meu pai vai ficar furioso!! Logo em seguida pensei, vou morrer e a neve vai cobrir meu corpo e só vão descobrir daqui a um século!! E por último pensei: Vai todo mundo me zoar porque eu estava gordinha e gordinhos não conseguem subir montanhas!!
Com base nesses pensamentos super produtivos...rs, eu respirei fundo e subi a montanha, porque escutei barulho de carro e pensava que se eu me jogasse na estrada pelo menos alguém ia ver o corpo...que exagero...ahahahahahh realmente tinha uma estrada e quando cheguei nela me joguei no acostamento e fiquei alguns minutos ali até que o chinês que eu tinha visto no albergue me alcançou e logo em seguida uma mulher dirigindo um carro passou por mim e fez sinal de positivo, não sei porque mas entendi que estava próximo ao meu objetivo e menos de um km depois vi a ponta da catedral de Roncesvalles e é indescritível a sensação que tive ao ver aquela igreja...chorava copiosamente pois TINHA SOBREVIVIDO AO PRIMEIRO DIA, a tempo de chegar para a missa que abençoa os peregrinos! Eu consegui transpor a primeira e, para mim, a mais difícil montanha do trajeto e o caminho começava a se desenhar a minha frente
....
Muito legal Dany, quero ler sobre toda a viagem...
ResponderExcluirAdorei suas aventuras. Vou acompanhar com gosto. Começou muito bem. Tanta leitura te deu a manha
ResponderExcluirDany.. descobri agora o seu blog me emocionei mto no seu primeiro dus.. mulher de fibra vc.. vou fazer o caminho francês em maio de 2015. Parabéns pela jornada. . Leticia
ResponderExcluirObrigada minha amiga...faça um ótimo caminho!!! Qualquer coisa é só chamar ;)
ResponderExcluir